terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mais vale tarde, que nunca!

Este ano, resolvi aprender a andar de bicicleta! Tenho quase 25 anitos, quase ¼ de século de vida e isto pode parecer estranho, mas é a realidade. Vá lá! Riam-se, gozem, espantem-se, que eu não me importo! Mais vale tarde, que nunca!

A ideia veio da minha necessidade de fazer exercício físico. Não que eu esteja uma baleia... Simplesmente, vivia com a sensação de ter um corpo enferrujado e sentia saudades daquele cansaço gostoso que sobrevém depois de um exercício relativamente puxado. O meu curso tem-me obrigado a muitos sacrifícios e esse era mais um deles. Muitos não perceberão ou não concordarão, mas eu cá sei ao que me refiro...

Enfim, começar a andar de bicicleta era matar dois coelhos de uma cajadada só: punha-me a mexer (mente sã em corpo são!!), divertia-me, relaxava-me, fazia-me poupar algum dinheirito em viagens de autocarro de cada vez que quisesse visitar os amigos que vivem mais longe de mim (faz-me sempre um jeitaço ter mais alguns trocos quando chega o fim do mês...) e ainda podia livrar-me, por fim, do sarcasmo dos meus amigos e do sorriso incrédulo dos conhecidos que ficam a saber que eu não tinha aprendido a andar de bicicleta quando era garota. Ora vamos lá a ver... parece que, afinal, matei uma coelheira inteira...

Resultado: o meu pai dispôs-se a arranjar uma bicicleta de adolescente que me tinham comprado há uns anos atrás, que estava quase nova, mas que eu nunca tinha podido utilizar. Encheu os pneus, apertou os parafusos soltos, pôs travões novos, faróis e uma pequena e estridente campainha com um leãozinho colado. Está uma gracinha! Bem sei que é uma bicicleta pequena para mim, mas cabe no carro e é suficientemente grande para eu poder andar. Parece uma daquelas que os miúdos usam para fazer acrobacias! Quando passo na rua, lá em Cádiz, há sempre alguém que se ri. E eu rio-me também. Admito que fica um pouco estranho, mas é o que há!

Ainda me lembro de ir de férias com alguns amigos e ter aceite o desafio para ir dar umas voltinhas com eles. Céus! O que eu sofri nesse dia... Mas agora, até já tiro uma mão do voltante! Não se preocupem! Sou uma condutora responsável, paciente e muito simpática. Só atropelo rapazes bonitos e solteiros...

O mais interessante de toda esta história foi ver o meu pai todo entusiasmado em me preparar a bicicleta. Quando, finalmente, ficou pronta, levou-me para o largo das traseiras da minha casa e pôs-me a dar voltinhas, enquanto me enchia de conselhos. Não precisei daquelas rodinhas que se põem atrás. Vá lá, se estiverem a pensar nisso, podem tirar o cavalinho da chuva e tornar-se menos ruins.

Todo babado, o senhor Comandante lá me mirava com os seus cabelos e barbas grisalhos e olhar enternecido. Era notório que aquilo lhe dava prazer! As pessoas esquecem-se que são as pequenas coisas, como isto, que fazem a nossa felicidade. E embora estivéssemos 10 ou 15 anos atrasados, lá estávamos os dois, numa cena memorável de pai e filha. Podem crer que nunca mais vou esquecer! Penso que o meu querido papá se redimia. E a mim, também me fazia feliz vê-lo assim, satisfeito. Mais vale tarde, que nunca!!!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A mulher das calças

Hoje, fui com a minha mãe ao IPO, para ela participar num exame de rastreio do cancro de cólon. Sou suspeita de o dizer, mas a minha mãe é uma peça única e uma paciente exemplar (infelizmente, já tive de a ver internada mais do que uma vez). Quem me dera que todos os meus futuros doentes fossem tão bonzinhos e bem-dispostos como ela! E corajosos, também!

Enfim, íamos nós por aí acima, quando reparo que vêm a sair do edifício principal dois palhacinhos daquele grupo que anda a animar as crianças pelos hospitais. São verdadeiramente impressionantes e o seu trabalho louvável e muito necessário. Mas nesta curta história, eles não são os protagonistas. Atrás deles, dou-me conta, por acaso, de uma senhora de meia-idade a quem caem no chão, subitamente, as calças. Palavra! Pois a boa mulher, em vez de puxá-las rapidamente para cima e olhar a toda a volta, disfarçadamente, para se certificar de que ninguém se deu conta, baixa-se, sim, para puxar as calças, mas devagar, rindo-se a plenos pulmões e deixando todos surpreendidos. Só eu, a minha mãe e umas empregadas de limpeza que estavam sentadas a descansar é que nos demos conta. Os outros, com certeza, pensaram que a mulher era doida. Nenhuma de nós conseguia conter-se e as lágrimas já nos rolavam pela cara abaixo, como se nos tivessem dado um par de tabefes. E aí foi ela, rua abaixo, rindo-se sem parar e dizendo que nunca pensou que lhe pudesse acontecer uma coisa daquelas. Ah! Que sentido de humor admirável! Aquilo, só vendo! Contado assim, até perde a piada... Parecia uma cena tirada daqueles apanhados de vídeo que costumavam fazer na Euronews!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A propósito da vida humana

Esta noite, vi uma reportagem que me deixou boquiaberta! Uma menina nasceu com menos de 400g, às 22 semanas de gestação e sobreviveu até agora! Cabia na palma da mão...

Saíu da incubadora e está pronta para ir para casa com os pais, com cerca de 4 meses de vida. Disseram os médicos que ela deveria adquirir as capacidades dos bébés normais de uma forma mais lenta, dada a sua prematuridade, mas até nisso ela tem sido uma surpresa!

Claro que teve as suas complicações... infecções respiratórias, problemas digestivos, hemorragia cerebral... mas parece que nada disso lhe deverá deixar sequelas. Será?

Milagre? O que é um milagre? Seja o que fôr, abençoada criança! Que seja muito feliz! E que me perdoem os outros profissionais, mas a medicina e a enfermagem são do mais priveligiado que há! Lidar assim de perto com a magia e o poder da vida humana, para o bem e para o mal, é... aiiii...

Obrigada, Deus, por esta benção!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Esperança

Casacão pesado, lenço na cabeça e enormes sacos pendendo dos braços, a mulher negra discursava gritando do lado oposto da plataforma do metro: "...que raio de mundo é este?!...todos criticam a escravatura, os judeus já não são perseguidos, defendem-se os direitos dos animais, mas vidas humanas com menos de 10 semanas de existência podem ser aniquiladas?!!!!..."

Do lado de cá da estação, aguardando o transporte de regresso a casa, era impossível não ficar impressionado com aquela figura que, cada vez mais embravecida, não se calava!

"É maluca", comentou uma boca coberta de batôn vermelho ao meu lado.

De facto, parecia maluca. No entanto, não encontrei NADA que não fosse verdade no que ela dizia! E foi isso que transmiti à minha vizinha no momento em que nos levantávamos para entrar na carruagem que entretanto se aproximava. "Tem razão"- desabafou - "maluco é quem não reage ou aprova que se mate quem ainda mal começou a viver!"

Como passageiras cansadas que estávamos, ocupámos os últimos lugares sentados. No vidro a que me encostei um autocolante lembrava que aquele banco deveria ser cedido a quem estivesse sob condições especiais- grávida, nomeadamente. Olhei em volta e não vi nenhuma. Veio-me então à cabeça uma frase de Tagore: "Cada criança que nasce traz a mensagem de que Deus ainda não perdeu a Esperança no Homem."


Será que Deus está a perder a Esperança no Homem?


Sendo Esperança o título que dei ao texto que acabei de escrever, parece-me um pouco triste a frase com que o termino. Assim, prefiro acreditar que, um dia, TODOS reconheçam que TODOS têm direito a nascer e desse modo Deus tenha motivo para ter Esperança no Homem.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Free (almost) as a bird

Bom, como sou uma abusadora, vou ocupando espaço neste blog. De qualquer forma, só lê quem quiser, né?! ;)

O leão serenou um pouco, mas a fúria ainda lá está, contida, à espera de sair, qual panela de pressão. Acontece que estou, efectivamente, decidida a transformá-la em algo de positivo. É uma força cuja intensidade não se pode desperdiçar!

Por agora, pelo menos durante cerca de um mês e meio, acabaram-se os exames chatos e difíceis e, portanto, estou um pouco mais livre para fazer aquelas coisas pelas que tanto anseio. Free (almost) as a bird! O problema está em que, ironicamente, hoje levantei-me meio desorientada, sem saber bem o que fazer ou por onde começar. Topam o absurdo da situação??!! Acho que, um dia que me reforme (ainda nem comecei a trabalhar e já estou a pensar na reforma?!), serei daquele género de pessoas que não poderá estar parada. Sim, certamente! Se parar, morrerei! Enfim, levantei-me, liguei rádio, olhei para a minha secretária desarrumada e para a minha casa não muito suja, mas a precisar de uma limpeza e pensei que há coisas de que nunca nos safamos... Esta vida de estudante está a dar cabo de mim! Raparaparaparaparaparari... Apesar disso, já estou cheia de saudades desta vida. Isto admite-se?! Parece que vivo em dois tempos diferentes, simultaneamente.

Eheheh! O mais giro é eu estar aqui na biblioteca, viajando na maionese (como dizia meu amigo brasileiro), enquanto os outros desgraçados marram nos livros. Bom, nem todos. Os meus vizinhos, queridos colegas portugas, divertem-se a jogar poker no PC. Isso mesmo! Um destes dias tenho que vos falar sobre eles! São uns personagens! Aproveitem para cuscar o blog deles (aqueleblog.blogspot.com) e divirtam-se!

Bem, isto hoje não está a correr bem. Acho que vou indo.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Como um leão enjaulado

Conhecem aquela expressão "como um leão enjaulado"? Pois foi a melhor forma que encontrei para descrever como me sinto neste preciso momento. Aliás, tenho 15 minutos para falar sobre o assunto - foi o tempo que propus a mim mesma. A partir de então, toda esta raiva que sinto, esta vontade de matar um punhado de pessoas que conheço aqui, terá de ser transformada em energia e determinação para trabalhar e tornar frutuoso o meu esforço. Claro que, dito assim, nada disto faz sentido, mas como eu já disse, só tenho 15 minutos (agora, um pouquinho menos...) e portanto, vejo-me obrigada a fazer alguns cortes no meu desabafo. Acreditem que matar essas pessoas seria pouco. É gente que não vale o ar que respira! Não suporto pessoas que se consideram acima dos outros, que não medem as consequências dos seus actos, que são injustas deliberadamente e más e pensam que podem, pura e simplesmente, fazer o que querem. Desengane-se quem pensa que neste mundo não há justiça. Parece que não há! Ela tarda, mas não falha! E eu não preciso mexer uma palha para que estas pessoas que tanta raiva me despertaram acabem por "pagar os seus pecados". Não sou rancorosa, nem vingativa. Quem me conhece, sabe que sou moça de bons sentimentos, que procura a harmonia e a tranquilidade. Sei que este texto parece demonstrar o contrário, mas, afinal, quem nunca teve um dia mau? Quem nunca se encontrou perante pessoas ignóbeis? Como não lhes vou bater (porque näo acredito na violência como modo de resolver os problemas), muito menos as vou matar, esta foi a forma que encontrei para desabafar alguma da minha tensão. Conselho, para quem estiver interessado: a melhor vingança, é ser-se feliz! Por isso, vou trabalhar para a minha felicidade! E porque sou, de facto, aparentada com os felinos, quando estou zangada comporto-me como um leão enjaulado e aconselho a não cutucarem a fera com vara curta, esta minha raiva vai fazer-me alcançar os meus objectivos! Tenho dito!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Cacifo que não abre

Depois da correria típica de manhã para chegar “não tão atrasado” às aulas e após ter deixado parte do peso acessório do meu corpo (casaco + camisola de capuz + livros + dossier) no cacifo, também já de si bem “pesado”, lá fui eu para mais um dia de Medicina, agora com mais prática clínica.
Um pequeno à parte, até porque este episódio é sobre o meu cacifo: acompanha-me há já quase 6 anos e está muito bem localizado na grande macissez hospitalar, no piso 01, logo não tenho de subir escadas, e no primeiro lance de cacifos, mesmo no início (1º coluna) e ao nível da minha altura, logo não tenho de me baixar para o abrir...que preguiçite crónica não !!??
Bem, mas retomando o anterior, depois de voltar da enfermaria e antes de ir para o almoço, lá ia eu no ritual usual desta hora, abrir o cacifo, tirar bata e estetoscópio, vestir o acessório, pegar na senha grátis de alimentação...mas no início desta dinâmica rotinada, havia algo que oferecia resistência...não conseguia abrir o cacifo! Pus-me a pensar o porquê de tanto entrave e deu para perceber que de tão cheio que estava, exerceria pressão sobre o sistema da fechadura.
Pedi ajuda a uns colegas para inclinar para trás, e em bloco, o bloco de cacifos, para que a gravidade também desse uma ajuda e o conteúdo do cacifo desimpedisse a fechadura. Mas estava complicado e até surgiu mais um imprevisto...o vidro grande e fosco que estava por detrás acabou por se partir parcialmente...e parte dos estilhaços iam caindo em cima de um senhor que estava sentado, do outro lado, num banco “tipo de jardim”...sim, um daqueles que existe perto da sala de alunos! Claro que depois disto, uma auxiliar que passava por ali, no timing certo, começou a refilar e eu tive de apaziguar e explicar o sucedido...
No meio deste impasse, surge um colega mais encorpado e despachado que reparou no sucedido e pediu a todos que cessassem o esforço. E lá vai ele, todo decidido e com alguns cavalos de força, começar a maltratar o dito cacifo...e depois de várias marteladas lá conseguiu...
Mas acho que não aprendi muito com este filme, até porque o cacifo continua a rebentar por tudo o que é lado...
Ah!.. e o tal vidro ainda continua partido...não se dá muito por isso...mas é para continuar?


segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Uma questão de hormonas

Toda a vida se ouviu os homens falarem do síndrome de tensão pré-menstrual, de como as mulheres ficam afectadas naqueles períodos do mês pelas hormonas e de como eles necessitam uma paciência de Jó para lidar connosco. Ok. Ridicularizam-nos com isso, mas temos de admitir que isso tem um fundo de verdade. Acontece que a realidade não é bem como eles a pintam, isto é, nós não somos puros animais obedientes às flutuações hormonais e nem todas as mulheres sofrem desse síndrome. Além do mais, também eles são bastante influenciados pelas hormonas, começando pela velha história de "espalhar a semente", a eterna desculpa para pularem a cerca. Ainda outro dia tive uma interessante troca de ideias com dois colegas da faculdade sobre o assunto. É uma daquelas discussões que nunca acaba, porque a "guerra dos sexos" é eterna. De momento, prefiro não aprofundar muito esse ponto, pois daria pano para mangas.

Seja como fôr, há uma coisa que não se pode negar: há espécimens do sexo oposto que nos fazem perder o controlo! São aqueles homens ou aquelas mulheres cuja embalagem exterior (o seu corpo) é deslumbrante para os nossos olhos e nos ofusca o discernimento, pois comportamo-nos como se nos esquecêssemos de que também há que olhar para o conteúdo dessa embalagem. Isso não tem nada a ver com hormonas! É uma complicada e ainda não esclarecida questão química. Pois bem, eu nunca fui daquelas adolescentes que colavam recortes de revistas por todo o quarto com fotos dos seus "ídolos masculinos", embora houvesse quem não me deixasse indiferente. Acontece que, até agora, não havia nenhum homem para quem eu olhasse e me fizesse sentir que perderia o controlo. Ai, meu Deus... Há uns tempos atrás, descobri-o! E ironia do destino, renova o significado de deus romano, não fosse ele um italiano nascido em Roma. Admito que se este homem olhasse para mim como um homem olha para uma mulher, eu teria bastante dificuldade em me manter sóbria no meio da súbita subida dos meus níveis de feniletilamina. Para quem não sabe e segundo o meu professor de Sexologia (cadeira opcional na minha faculdade de medicina espanhola), esta é uma substancia cuja concentração dispara no nosso corpo, qual endorfina extasiante, quando estamos naquele maravilhoso processo de nos apaixonarmos. Mas o que é que faz, realmente, com que se dê esse "disparo químico" (provavelmente, o equivalente à flecha do cupido)? Isso, creio que ninguém sabe... E valerá a pena descobrir? A curiosidade é muita, mas... não será melhor desfrutar dessa encantadora sensação, em vez de lhe retirar toda a magia, estudando-a num balãozinho de laboratório? Bom, de qualquer forma, não me parece que isso explique a complexidade do amor entre duas pessoas. Quanto muito, explicará a atracção física. Sim, porque eu não me apaixonei por esse deus romano... E já agora, ele tem nome. Procurem no google imagens de Raoul Bova e depois digam-me o que acharam. ;)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Por que é que é sempre preciso um título?!!!

Há momentos na vida em que somos obrigados a fazer coisas que não queremos, mas nem por isso deixamos de pensar naquilo que desejamos. São momentos difíceis. O nosso corpo está num sítio e a nossa cabeça e o nosso coração, noutro.

Apesar de tudo, a alma continua livre. A minha, pelo menos. Não gosto de me sentir presa ou obrigada e não admito que nada nem ninguém tenha a veleidade de querer controlar-me, dominar-me. Por isso, a monotonia do quotidiano não conseguirá ofuscar o brilho dos meus olhos, a vitalidade que me corre nas veias, nem mesmo em dias como o de hoje, em que me sinto rebentar pelas costuras com tantas ideias e desejos que trago dentro de mim. A vida é muito mais do que as simples responsabilidades do quotidiano e ignorar isso é como desperdiçar o mais valioso de todos os presentes: o simples facto de existir. Quando se anda por um hospital cheio de gente doente, a inconsciência do tesouro que é a vida torna-se numa negligência ainda mais horripilante.

Em anos de mudanças radicais, de transições de uma etapa da vida para a outra (como aquele que vivo neste momento), não consigo ficar indiferente às emoções que sinto e o ram-ram do dia-a-dia é como uma corrente de chumbo, pesada, que nos ata os pés e nos dificulta a marcha (semelhante às dos desenhos animados). Portanto, pequenas coisas como escrever neste blog estão para mim, como a lata de espinafres está para o Popeye: bota goela abaixo e cá vai disto!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Pensamentos que me ocorrem quando estou na biblioteca

Cá estou eu de volta a Cádiz, de regresso às madrugadas geladas e húmidas antes de entrar no forno do hospital e às tardes passadas na biblioteca a fingir que se estuda. Apesar de tudo, não me queixo. A vida vai-me correndo bem e já vejo o fim desta longa etapa com alegria, mas, também, com uma pontinha de nostalgia. Quem diria...

Parece-me que tudo se passou demasiado rápido e, simultaneamente, demasiado lentamente. Tenho a sensação de viver em duas realidades paralelas: uma, a real, a do tempo presente; outra, a psicológica, a das constantes viagens no tempo. Se, por vezes, esta sensação é incómoda, outras vezes é como uma verdadeira droga e eu sou a mais viciada de todas as pessoas que a experimentam. Faz-me sentir muito viva e lembra-me o quanto tudo na vida é tão efémero e relativo. Porque a cada passo que dou algo me recorda o que já vivi e me faz pensar em como a minha realidade mudou, em como eu cresci. Céus! A minha mãe disse-me, um dia, que os nossos sentimentos parecem pobres quando traduzidos por palavras e ela estava coberta de razão. Como posso explicar isto? Só posso dizer que me sinto esmagada pela intensidade desta emoção.

Hoje, a biblioteca está quente e cheia de gente e isso só agrava a moleza do meu corpo e a minha pouca vontade de estudar, ao mesmo tempo que me estimula a pensar naquilo que não devo. Sabem como sabemos que estamos velhos numa faculdade? Quando olhamos para as pessoas à nossa volta e quase não reconhecemos ninguém! lol

Observo um dos meus colegas portugueses que se muda de lugar. Ele olha para mim um pouco espantado e eu rio-me. É um malandro cheio de sentido de humor e inteligência, mas não se dá a conhecer facilmente, o que é uma pena. Bom, pelo menos, para mim. Outro, brinca com a caneta, tentando concentrar-se. Quando aqui cheguei, isto era um deserto. Agora, formamos uma comunidade interessante e juntamente com os brasileiros, a coisa fica ainda mais animada. Espero que todas estas pessoas sejam felizes enquanto estiverem aqui e que, um dia, possamos voltar a encontrar-nos.

Hoje, estou com a macaca! Só me apetece dar o grito do Ipiranga, pintar a manta e abraçar todos aqueles que me são queridos. Infelizmente, isso não é possível, pois nem todos estão aqui, fisicamente perto de mim... É a dureza da imigração!

Tenho muitas coisas para dizer. Serei capaz de traduzir os meus sentimentos por palavras? Logo se verá...

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Há coisas que me custam a entender

Ora bem, vamos a ver se explico isto de forma inteligível e resumida. Recentemente, fui convidada por um amigo para fazer parte deste blog e aceitei de imediato, muito contente pelo gesto e entusiasmada com a ideia. Fiz, imediatamente, um post. Entretanto, o tempo passou-se e não tive oportunidade de voltar a fazer novo post, apesar das muitas ideias que me passavam pela cabeça. Andava um nadita aborrecida com isso e esta noite decidi que de hoje não passava. Pois qual não foi a minha surpresa, quando me dou conta de que não me lembro de como entrar, nem sequer estou certa do meu username e password. Faço todas as experiências que me ocorrem e nada! Fico furiosa! Ando cansada e distraída, mas não é para tamanho absurdo! Depois disto e de me ter esquecido do pin do cartão multibanco de uma conta que nunca uso, comecei a pensar que talvez fosse bom ir ao médico... Não percebo como é que acontecem coisas deste género! Enfim, como podem ver, acabei por resolver o problema, mas não sem perder uns bons minutos e me sentir uma perfeita idiota. Por outro lado, aquilo que vinha dizer, o que realmente era importante, parece-me agora demasiada areia para a minha camioneta cansada. Não paro de abrir a boca... De forma que, lá vai ficar outra vez para outro dia...
Feliz 2007 a todos!

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

a cabeleira

Com sandálias velhas calçadas, todos os Verões, durante as férias, havia visitas à horta e passeios pelos montes transmontanos com o pai a fazer-se de guia. Mas guia mesmo! tipo: boné na cabeça, vara de pau empunhada, chefiando um grupo de pequenos caminhantes ansiosos por voltar para a televisão e com um ar de senhor professor que, avançando por entre a vegetação seca, perguntava “que espécie de árvore é esta?” E os pés enegrecidos pela poeira pontapeavam-se disputando a resposta acertada!
Foram muitas as árvores que aprendi a identificar com estas lições, mas mais ainda são aquelas cujo nome desconheço por completo! Com tanta árvore por este mundo fora só não percebo que ideia marada foi aquela que tive nos tempos do colégio!

As tesouras sempre constituíram um material de grande utilidade para as crianças. Naquele dia os cabelos foram as vítimas! Com uns golpes consentidos e outros menos (a Barbie lá do sítio desconhece por completo o seu contributo…), foram de todas as cores as madeixas que recolhi na minha turma. Depois, juntamente com os meus cúmplices, fazendo uma covinha no canteiro, “semeei” aquela que viria a ser uma nova espécie de árvore: a cabeleira.
Quando digo “viria a ser” significa que, para os pseudo agricultores, era mais que certo ter ali, num futuro próximo, uma frondosa e bonita árvore que no Verão seria morena, loura no Outono e careca no Inverno (a estação primaveril ficou por colorir).
Pois é… para quem tem capacidade para aceder a um blog e ler estas linhas, é fácil concluir que o local permaneceu vazio! Para quem tem a idade das tesouras e pôs esperanças naquele pedacinho de terra, a culpa esteve na falta de rega! Sábia conclusão!

Há anos que não vou ao colégio! Confesso, no entanto, que quando um dia lá voltar (e isto não contem a ninguém), serei incapaz de não ir espreitar o dito canteiro… just in case…


A Árvore da Vida-1905
Gustav Klimt

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Uvas vs Bicicleta

Aos 7 anos de idade tive mais um dilema, um entre tantos outros que caracterizam este período rebelde...estava numa aldeia de família que já de si seria familiar, num dia solarengo de Junho e perto do final de um almoço até então "comido" num ápice, quase sem respirar, mas eis que surge uma sobremesa considerada saudável e apetecível pelos demais adultos e não só, mas não para mim, estranho até, porque eu já era considerado um "bom garfo". Nesta altura, o leitor deve estar a precisar de respirar devido à extensão da última frase nada "Saramagoniana", pois pelo menos tem umas vírgulas a pautar o ritmo (não se trata de uma crítica implicitamente directa!), mas voltando ao assunto...qual seria o prato final "sobre a mesa" aqui em questão? Algo pouco comum? Pelo contrário, até é bastante tradicional no nosso país, bem regado por sinal! As uvas! A minha Tia que acumula também a pasta de Madrinha, propôs-me, após largos minutos de insistência, que se eu comesse de vez o tal cacho do fruto não desejado, ganharia em troca "uma... - aqui aplicar-se-ia mesmo a expressão: Ok, leva lá para casa a - ... bicicleta "!!! - isso mesmo...nada mais nada menos do que esse meio locomotor! Era o agora ou nunca, umas míseras uvas contra uma bicicleta, mas no fim prevaleceu o menos provável, até nestas idades... não comi as tais uvas, fiquei com menos Km de estrada! Resumindo, a prova não foi superada, ganhou o Nunca e eu passei a pisar mais uvas!

sábado, 23 de dezembro de 2006

História de uma caneta...

Agora que recordo com alguma distância temporal essas ditas aulas, lembro-me de um determinado dia na Escolinha: durante uma aula de Francês, estava eu no miolo habitual das carteiras de uma sala, não muito grande mas arejada o suficiente para 31 cabeças pensantes...e no meio de uma desatenção natural mas causal (qual seria o porquê de tanto desinteresse?), nos gestos também naturais do corpo relaxado, lá ia eu manobrando de vez enquando uma caneta Parker com as duas mãos, qual microfone à Marco Paulo... e num desses devaneios motores surge um acaso e a caneta salta caprichosamente, ficando presa nas costuras das minhas calças Jeans de marca e algo desgastadas, numa zona algo embaraçosa... tentei, sem sucesso, retirar a caneta do seu alvo, mas não estava fácil... contei, algo constrangido, ao colega da frente, o qual depois de se aperceber, descascou-se a rir... a "Stôra" não gostou daquele barulho e mandou-nos ir apanhar ar... mas quando levantei-me, a dita caneta continuava teimosamente a não querer sair da sua nova casa, tipo pêndulo de relógio de caixa alta...marchei ao som de um novo tic-tac até que a Senhora Professora e restante turma reparou no apêndice... O que é isso? Perguntou a autoridade...não soube explicar o inexplicável...chegou a hora do intervalo e lá continuava a caneta na sua nova localização... pelo que decidi começar a desmontar o que dava da sua anatomia... e no fim de tudo, fiquei só com parte desta agarrada à costura...e passado algum tempo só um rasgão, como reflexo da marca do acaso...

Do fôro psiquiátrico com amor

Dizia-me a minha amiga brasileira, esta noite, no msn: «Aí, minina, sábi quein eu encontrei lá no bar? Adjivinha!». Curiosa, respondi: «Não. Conta lá!». Então, ela dise: «A turma de médicos psiquiatras lá do hospitau. Os côroas todos, enchendo à cara e fazendo piada dji tudo. Vem um residentxi e gruda em mim a noitxi toda. Eu me acabáva de ri! Aí, quândo eu ía embora, ele mi dá seu número e djiz pra mim qui si souber como vai sê o exame, me fala no ouvido. Cê já viu isso?!! Só me sai doido na rifa!!». Hay que ver esos gaditanos...

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Matarruano

Imaginem o seguinte filme:

Eu tinha o carro estacionado numa determinada rua estreita de Lisboa há já 3 dias...tudo normal até agora, certo?? Mas atenção!!! Bem estacionado e dentro da lei, e eis senão quando, decido tirar o dito carro...mas não estava fácil, e porquê? Seria do condutor? Neste caso não... tinha um carro atrás a bloquear a saída...que vendo bem, até é normal quando se trata de uma rua estreita em Lisboa (caos). Começo a apitar para ver se o condutor do bólide dava sinal de vida...houve uma pessoa que se revelou ser um falso alarme, não era o seu carro...mas passado mais alguns minutos e uns decibéis a mais, apareceu uma espécie na casa dos 40 anos, tipo matarruano, com corpo preguiçoso, olhos encovados e de perturbado, barba por desfazer, cabelo anti-shampo que pareceu dirigir-se para o "outro" carro...abordei-o com um Boa Noite e perguntei se aquele seria o seu carro, ao que ele respondeu: GrrrhGrhhh (não percebi o dialecto). Agora o leitor acharia que tudo se resolveria por aqui...nada disso! O "Zé Matarruano" fez marcha-atrás para aí uns 20 cms bem medidos, que não dariam, nem para um Smart (não era o caso), o espaço suficiente para fazer a manobra. Saí do carro, e interpelei educadamente o tal senhor, o qual saiu do carro à bruta e provido de um taco de Baseball...puxou o taco atrás e lá ia eu levando uma bastonada se não tivesse estado minimamente calmo e não tivessem aparecido umas pessoas no timing certo ...entretanto a minha irmã que estava dentro do meu carro, aquando da manobra mal sucedida por dificuldade alheia, saiu do seu lugar e começou a gritar e a perguntar que algazarra seria aquela e se o Homem teria saído de "algum Júlio de Matos"; desta feita a espécie Matarruano Matarrunae Brutus investe a sua idiotice sobre ela e foi aí que uma Carmo e uma tal de Trindade caíram...pelo que eu participei do sucedido à polícia local. Convém notar que depois de saneada a confusão, e já a caminho da polícia, passou um carro patrulha em sentido contrário, o qual não reagiu a sinais de luzes/apitos do meu carro, continuando serenamente o seu caminho com o objectivo de chegar "não sei aonde e não sei a que horas".
Tenho dito.
Esta poderia ser a máscara desta espécie rara:

Isto é uma EsPéCiE dE BLoG

E assim surge mais um blog nesta Blogosfera...vindo do nada, talvez para nada e quem sabe até mais "um nada" neste novo meio!
Esta nova espécie sem taxonomia para já, ainda não determinou qual ou até quais os seus propósitos, o que pretende vir a ter para caçar, que habitat pretende primeiro, para estar...e, depois, sim "estragar"...
Mas calma...este novo "specimen", The Special One, pode falar sem baralhar, da intemporal Selecção Natural, que te desafia em constantes provas de quase-fogo ou até de fogo e, que te incendeia desde a tua 1ª célula até à última que perecerá...por isso deixa o rastilho do teu rumo bem aceso, com testemunhos que desenrolares da tua mente, essa sim pertencente a uma Espécie bem conhecida e às vezes desmedida.
Se conseguiste ler até aqui, considera-te um resistente... por isso não deixes em reticências o que podes dizer com um conjunto de letras, que juntas formam códigos (i)lógicos e que num encadeamento estabelecem um sentido, que por sua vez subentendido ou não, pode revelar muito do teu Ser!

Junto envio uma rima fácil que inventei e que constitui o Meu Azimute:

"Em tempestade ou na bonança, haja sempre perseverança!!!"